segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Sobre insanidades e perdões

Vejo uma luz insondável nesta noite de saudades siderais, em que o vento levita cortinas.
E é uma saudade tão peculiar.
Se eu pudesse teria aqui seus gestos, seus silêncios ou suas palavras.
Mas eu não tenho aqui nem presença e nem palavras, minhas ou suas. E ficar só e sem palavras é uma contingência estranha.
Se eu pudesse, eu voltaria os ponteiros do relógio, e recolheria no vento as acusações infundadas e argumentos insanos, o entendimento pequeno e as palavras proferidas sem fé.
Ah, se eu pudesse, daria outro contorno ao nosso pequeno enleio. Mas eu não sei driblar o tempo.
Nem mesmo uma imagem eu encontrei para esse textinho, talvez porque não conheça a cor do perdão, nem da saudade, e esse texto de palavras desamparadas, no fundo no fundo, é apenas um pedido de perdão, velado numa declaração do amor que eu tenho, escondidinho num mar de enredos e desatinos.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Experiência

Recebi esse texto por e-mail, e achei muito válido.
Conta no arquivo que esse texto foi escrito durante um processo de seleção da Volkswagen, onde os candidatos deveriam responder a seguinte pergunta:"Você tem experiência?"

***

Já fiz cosquinha na minha irmã só pra ela parar de chorar, já me queimei brincando com vela.
Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto, já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo.Já quis ser astronauta, violonista, mágico, caçador e trapezista.
Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora. Já passei trote por telefone. Já tomei banho de chuva e acabei me viciando.
Já roubei beijo. Já confundi sentimentos. Peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido. Já raspei o fundo da panela de arroz carreteiro, já me cortei fazendo a barba apressado, já chorei ouvindo música no ônibus.
Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais difíceis de se esquecer. Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas, já subi em árvore pra roubar fruta, já caí da escada de bunda.
Já fiz juras eternas, já escrevi no muro da escola, já chorei sentado no chão do banheiro, já fugi de casa pra sempre, e voltei no outro instante. Já corri pra não deixar alguém chorando, já fiquei sozinho no meio de mil pessoas sentindo falta de uma só.
Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado, já me joguei na piscina sem vontade de voltar, já bebi uísque até sentir dormentes os meus lábios, já olhei a cidade de cima e mesmo assim não encontrei meu lugar.
Já senti medo do escuro, já tremi de nervoso, já quase morri de amor, mas renasci novamente pra ver o sorriso de alguém especial. Já acordei no meio da noite e fiquei com medo de levantar.
Já apostei em correr descalço na rua, já gritei de felicidade, já roubei rosas num enorme jardim. Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas sempre era um "para sempre" pela metade.
Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol, já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.
Foram tantas coisas feitas, momentos fotografados pelas lentes da emoção, guardados num baú, chamado coração. E agora um formulário me interroga, me encosta na parede e grita: "Qual sua experiência?".
Essa pergunta ecoa no meu cérebro: experiência... experiência... Será que ser "plantador de sorrisos" é uma boa experiência? Não! Talvez eles não saibam ainda colher sonhos! Agora gostaria de indagar uma pequena coisa para quem formulou esta pergunta:"EXPERIÊNCIA? QUEM A TEM, SE A TODO MOMENTO TUDO SE RENOVA?"

terça-feira, 21 de abril de 2009

Take a minute...

Take a minute... watch the world go by.
Pare um minuto... e observe o mundo passar.
A frase foi escrita com giz, pela fotógrafa Anna Hillman, no chão de uma rua de Londres.
Observar o mundo e escrever com giz, rabiscando o que a chuva pode apagar, como as passagens efêmeras, e que desfaz a nossa mania de eternidade.
Eu observei, sob os céus de abril...

quinta-feira, 26 de março de 2009

Luz dos olhos meus


Ah, aqueles olhos verdes...
Mais verdes, e mais coloridos de esperança que os Olhos Verdes de Gonçalves Dias.
Olhos mais puros e com mais estrelas que os olhos de Natasha.
São verdes, mas poderiam ser da cor do mel, ou do céu, ou de amêndoas, ou negros, ou azuis, não importa...
São os olhos que eu gosto.
Reflexos dourados da alquimia dos seus pensamentos, e através dos quais alcanço a imensidão translúcida do seu coração.
Queria neles sobreviver como numa fotografia.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Sobre nuvens, propósitos e renascimentos


(considerações em data de aniversário)


Nós vigiamos o dia.
E ainda que o horizonte seja um tédio contagiante, as nuvens sempre surgem nas formas mais surpreendentes, lanternas chinesas, carneirinhos, flores, golfinhos, saturnos...
As nuvens enfeitam o céu.
No entanto, muitas nuvens tornam o céu cinza, embora a cor nem sempre esteja no céu, mas nos olhos de quem perdeu os pontos cardeais, perdeu as contas de quanto tempo dedicou a olhar a linha de encontro entre céu e Terra... de quanto se tentou compreender onde o dia acabou e onde começa a noite.
Talvez muitas emoções sejam também assim, como nuvens, fumaças que se condensam em dias em que não há presente nem futuro.
De vez em quando, as nuvens se dissipam, deixando passagem ao azul, projetando alegrias, visitas, notícias, fazendo o dia crescer em tamanho, passando a significar algo no calendário além de uma segunda ou uma terça-feira...Porque esta contagem não passa de ilusão quando nada acontece...
É preciso que o dia amanheça, é preciso que a noite anoiteça e que o horizonte seja mais que um tédio contagiante numa paisagem delineada e sem mudanças...
Não pode se acostumar aos acontecimentos, embriagar-se em epifanias....Suportar silêncios.
É preciso que os dias arrebentem como uma onda gigante.
Eu também espero acontecimentos dignos, de datas que não passem em branco.
Espero transformar a rotina num passeio. Espero VIDA! Matéria-prima de quem não enxerga o tempo pela lente dos calendários inertes. Antes os caleidoscópios em movimentos incessantes, mosaico dos acontecimentos em horizontes lisérgicos ...Então, que o dia nasça de novo.
Eu renasci...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A arte da comunicação



A namorada


Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa porum cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.
(Manoel de Barros)



Os tempos mudaram, mas ainda hoje existem galhos de goiabeira e muros altos que impedem nossos bilhetes de chegar ao destino.
E quase nunca a resposta vem na mesma pedra.
A comunicação ainda é tão difícil....

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Depois da chuva

A saudade que tinha dela era tanta que ele decidiu ir atrás da chuva.

Como aqueles homens de antigamente, que iam para o oeste atrás de tesouros, lá foi ele, para o oeste, atrás daquilo que valia mais a ele que todo ouro do mundo: as ternas gotas da chuva que caía quando pensava nela.

Foi montado no vento, até os jardins com a terra cor-de-figo. Jardim como esse só poderia ter um nome doce de mulher.

E é nesse jardim que vive o mundo depois da chuva. Ele jamais conhecera esse mundo. Como poderia imaginar que depois da chuva nem a saudade caberia mais nas palavras. Saudade, depois da chuva, vira ternura.

E ele também descobriu que a ternura mora na eternidade.

Será que ela percebeu que deixou de caber nas palavras dele e passou a habitar toda sua eternidade?


Texto de Bernardo Guerra, o meu poeta.
Publicado em 09 de janeiro de 2009, no blog http://www.sobrenuvensefronhas.blogspot.com/

domingo, 28 de dezembro de 2008

Os caminhos incertos do calendário


É mesmo preciso dizer alguma coisa porque um ano termina e outro ano começa?
Quase sempre me pareceu preciso. Mas desta vez não vou dizer muito, prefiro me entregar aos acontecimentos. Não reafirmarei promessas que sucumbem antes mesmo do carnaval.
Não é tarefa fácil, já me peguei várias vezes afagando expectativas para as novas datas, ainda tão incertas.
Tenho sonhos e desejos, mas dessa vez quero o destino manifesto. Por isso ficarei quietinha enquanto o ano termina. Quero a sinfonia do acaso, não sei bem se por cansaço ou preguiça, não projeto palavra alguma, porque no meu íntimo as ressonâncias se encontram sem que se diga um "a".
Não preciso de muitas palavras só porque o ano termina. Nem promessas, nem acerto com o passado, nem reproduzir automaticamente as frases dos cartões pré-fabricados, todas tão prontas e tão automáticas.
No fundo no fundo, a única coisa que importa, mesmo, em qualquer altura da folhinha, ano termine ou comece, é que eu tenho um amor sem destino.
E por essa falta de norte, nessa porosidade de perspectivas, solto as amarras do passado e nem vislumbro futuro, aguardo apenas, eu e meu coração, encostados no lado azul do silêncio, enquanto os calendários se fecham.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Receitinha de Drummond

Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.
(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Outra vez Manoel


Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.
E...
Uso as palavras para entender meus silêncios.
(Manoel de Barros)