quarta-feira, 30 de julho de 2008

Como desmontar silêncios?

Queria poder dizer
Sobre as chuvas de cores, sobre miragens e estados do céu
Sobre revelações cabalísticas, que anunciam presságios e sonhos
Ou dos olhos que se enchem de amanheceres e dão roupagens a tantas ilusões
De todas as luas que passaram, e das coisas que não puderam ser olvidadas
Falar sobre o mundo e ao mundo o que o coração vê
Mas neste momento de sedição das palavras
Cada tentativa é um passo em direção ao silêncio....
A saudade calou as palavras e as arremessou para além dos limites do tempo, aonde meus pés jamais chegarão...
Restou apenas um nome ampliado na solidão do papel branco, sem alento, sem margens ou versos.
O nome de quem carregou para longe toda a poesia, todo o colorido e toda luz do mundo.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Mistérios, artifícios e essência de estrela


Ele tem um candor que quase não cabe
E ares de mistério
Até nos artifícios que usa para esconder o que os olhos não negam
Mas as máscaras que servem para esconder também servem para compor
e essencializar seus resquícios de menino
e toda ternura
Desconheço o som da sua voz
Mas sei das cores da palavras, do olhares, e dos encantos
Que dançam ao alcance dos seus dedos
E que traduzem em letras um coração doce
Capaz de iluminar toda a solidão dos caminhos sem lua.

Sobre a astrologia, o reizinho e o tempo



Era uma vez um menino que completaria 93 anos em tardes de abril.
Abril tem os céus mais bonitos do calendário, segundo Vinicius. E eu concordo com ele.
E era uma vez também uns antigos, de antigas civilizações, que inventaram de estudar agrupamento de estrelas, e cismaram que havia algum sincronismo entre fenômenos do céu, acontecimentos terrestres e a natureza das pessoas, e inventaram ainda que quem nascesse sob aqueles céus de abril seria regido por certo planeta de dois satélites, e teria as virtudes e o encanto de um ariano.
Não entendo muito sobre acontecimentos do invisível, e nem sei como esses conceitos cosmológicos foram organizados, ou exatamente quem definiu como deveria ser um ariano, mas o fez em dia de grande inspiração.
Esqueça tudo que você já viu ou ouviu sobre as renitências e impaciências desses nascidos, só não esqueça o rancor, porque ele realmente existe.
Um ariano, pelo menos o que reinou absoluto em meu coração, é realmente menino, realmente reizinho, capaz de grandes arrebatamentos e provas, de olhos de sonho, vivos e de lente cor-de-rosa, inquietude adorável e grande ternura. Mas é um menino-velhinho, que conhece as cores e o cheiro do amanhecer, que sabe tecer a aurora, e que nos caminhos do céu conseguiu driblar o calendário e viver além das franjas do tempo, onde não existe relógio ou o amarelar de folhinhas.
Nisso tudo tem muito das astúcias da poesia. Como o Bernardo da Mata, ele tem mesmo cacoete para poeta.
Esse menino-velhinho do meu ingênuo enleio trouxe luz aos meus sentidos, capaz de iluminar o silêncio de uma noite, apenas com a graça e as virtudes que colheu das suas dezenas de anos, e no meu firmamento, ainda é a única estrela que tenho.
Foi o encantamento nos meus dias de outono e a materialização lírica dos meus pensamentos. Até na camisa, que ainda é azul, mesmo que eu só tenha conhecido a amarela.
Depois dele, sonhos, só aqueles de manifestação involuntária, com os olhos fechados e cabeça bem encostada na fronha recheada de camomila e macela, que não é minha.
Das últimas notícias soube que chove no céu do seu reino. E que ele entende que não vai chover para sempre. Mas assim como ele dispersou em fragmentos todo o cinza do meu mundo eu queria saber algum truque mágico ou fórmula iniludível para dissipar toda intempérie do seu céu. Queria devolver o azul e o sol ao reizinho.
O reizinho quase secular, que transforma em saudade tudo que toca, e que ainda carrega um gracejo inocente, desses que o tempo não sanciona.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Para ficar em estado de nuvem


Muitos amigos me perguntam porque o interesse repentino por Manoel de Barros, e porque ainda não falei de Mário Quintana. Afinal, todos conhecem meu imenso amor pelo poeta gaúcho.
E esse amor permanece muito vivo, porque amor não morre... acho que a única coisa no mundo que morre, de verdade, é estrela.
Certamente existirá sempre espaço para o Quintaninha no meu coração.
Mas é que vivo um momento de completo deslumbramento pelos escritos do poeta mato-grossense. O deslumbramento da descoberta de um universo novo, de encantamento mesmo.
Ler Manoel de Barros é como voar nas plumas macias de um passarinho, e sentir todo o sentimento do mundo, e abrir o coração através de palavras que são chaves que abrem amores que ainda não nasceram, e perceber outros impossíveis da vida, em orvalho, em ventos, em estrelas, em sonhos.
A sua poesia está na terra, no chão, no galho de árvore, nas pedras, nas águas. E através dessa poesia, é possível ver luz no silêncio das coisas anônimas.
Ele acha boniteza em tudo quanto é coisa miúda, e dá dimensão de céu à alma da gente.
Como escreveu Márcio Vassallo, seus poemas são para a gente esfregar os olhos, espreguiçar e despertar mais feliz.
A poesia é dele, mas quem amanhece somos nós.


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Apresento a vocês dois poemas de Manoel de Barros, da relação dos meus preferidos, para todo mundo ficar em estado de nuvem.


O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda minha vida só engenhei três máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela de pegar no sono
Um fazedor de amanhecer
Para usamento de poetas
E um platinado de mandioca para o fordeco do meu irmão.
Cheguei a ganhar um prêmio das indústrias automobilísticas pelo platinado de mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre em minha existência.


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As bênçãos

Não tenho a anatomia de uma garça para receber em mim os perfumes do azul.
Mas eu recebo.
É uma benção.
Às vezes se tenho uma tristeza, as andorinhas me namoram mais de perto.
Fico enamorado.
É uma benção.
Logo dou aos caracóis ornamentos de ouro
Para que se tornem peregrinos do chão.
Eles se tornam.
É uma benção.
Até alguém já chegou de me ver passar
A mão nos cabelos de Deus!
Eu só queria agradecer.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

A menina de São Paulo

(para Yara Cascales)

Ela tinha ares de São Paulo... que encantava todas as outras meninas, tão provincianas, cujos domínios não ultrapassavam as cercas dos próprios quintais.
E nome de rainha.
Mas tinha mesmo que ser rainha de floresta, de pé descalço, de sol, de mato, de águas. Sem castelo, sem trejeitos sutilizados, sem glamour, sem protocolos.
De uma docilidade cativante, beleza simples e despretensiosa, essa menina de São Paulo trouxe consigo um mar de possibilidades tão maior do que podia suportar esse chão pequeno, pensamentos grandes demais para a mesquinhez de perspectiva reinante....
Nem todos se renderam.
No meu coração, ela deixou marcas indeléveis, e foi a presença de sonho num tempo de descobrimentos: de cores, de estrelas, de sons, de letras, de idéias, de mim.
Viveu primaveras incertas, vendavais, seguiu descaminhos e escalas inúteis. Seguiu e sorriu.
Valente essa Menina de São Paulo.
Até chorou também, mas sorriu muito mais.
E eu nunca pude mais que um ou dois pensamentos inconclusos, que ela até dizia que ajudava, é verdade, mas acho que só passou mesmo porque seu coração é grande e bom, e no meu entendimento meio infantil dessas coisas maiores penso que o universo conspira a favor de uma boa alma.
Como é a dessa menina-mulher, mãe do Lucas, uma alma que tem cor.
Uma das únicas almas que do mundo que tem cor, que salta pelo olhos, como se tivesse recolhido em si toda a luz do mundo, para depois inundar a vida da gente de cintilâncias.
Hoje ela faz de profissão a arte de dilatar o mundo e irisar os céus que apresenta para olhos pequenininhos, o que me faz pensar que teremos no mundo mais pessoas sabendo o que é o amor....
Brilhante essa menina de São Paulo.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Que cor terá se derreter?

(para Greyce Follmann)

Ninguém jamais sorriu como a menina dos cabelos dourados, nome de princesa, e dona das indefectíveis botinhas brancas.
Eu me lembro mais do sorriso do que das botinhas, porque o sorriso dela tinha som.
E era capaz de desmontar os silêncios de uma noite. Uma coisa meio gutural, meio de encanto, meio de movimento, meio de meninice em cima de saltos de botinhas.
E se tivesse cor, seria azul.
Tem como esquecer?
Isso lá pelo final dos anos noventa...
Mas ainda hoje ouço o som daquele sorriso, e nesses momentos o meu se abre largo.
Estar com ela era estar em graça. Ela pintou os dias mais coloridos dos Campos Gerais, e ampliou o sentido da palavra amizade até onde pôde esticar, nos limites do céu. Perto dela a alegria era quase palpável, e nisso tudo tinha muito de magia.
E hoje quase posso tocar a saudade que tomou forma no meu coração. Forma e nome.
Aquela risada tem muito a ver com o eco das minhas lembranças de endereço incerto, naquele pedacinho de terra de ventos enviesados, nos limites longínquos do Paraná.

sábado, 12 de julho de 2008

Parafusos no vento

Qualquer semelhança entre o nome Sobre os Parafusos do Vento e a poesia de Manoel de Barros não é nenhuma coincidência.

Na verdade, quis criar esse espaço para falar aos meus amigos. Aqueles que estão ao alcance dos meus olhos, aqueles que só posso ver com os olhos fechados, e aqueles que eu ainda conhecerei numa dessas curvas anônimas dos caminhos. Todos presentes nos domínios do meu coração.

E não há nenhuma severidade nos propósitos desse espaço, apenas falar de poesia, música, lampejos de memória, o céu e a terra, saudades, lugares, impressões.


E acredito que todos se encontrarão nas linhas desse universo, de uma maneira ou de outra. Porque todo o meu mundo está impregnado de cada um de vocês.

Mas ainda não expliquei a relação entre o nome do blog e o poeta matogrossense, que escreveu sobre o Bernardo da Mata, sobre o nada, sobre o guardador de águas, sobre um fazedor de amanhecer (para usamento dos poetas), e principalmente sobre as insignificâncias do mundo e as nossas.

E não conseguiria explicar, só mesmo apresentando o poema de Manoel de Barros, e o menino que apertava parafusos no vento.


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O vidente

Primeiro o menino viu uma estrela pousada nas pétalas da noite
E foi contar para turma.
A turma falou que o menino zoroava.
Logo o menino contou que viu o dia parado em cima de uma lata
Igual que um pássaro pousado sobre uma pedra.
Ele disse: Dava a impressão que a lata amparava o dia.
A turma caçoou.
Mas o menino começou a apertar parafusos no vento.
A turma falou: Mas como você pode apertar parafuso no vento
Se o vento não tem organismo.
Mas o menino afirmou que o vento tinha organismo
E continuou a apertar parafuso no vento.