sexta-feira, 29 de agosto de 2008
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Pequeno ensaio sobre a saudade
E nos seus braços o tempo tem outras horas
Outros compassos.
A saudade reina num tempo onde as datas não datam.
Ela pode chegar assim que uma porta se fecha.
Ou depois de muitos anos.
Pode chegar quando velhos retratos escapam das gavetas
Ou chegar de forma fortuita
Trazida por uma lembrança, um som, um cheiro, um sonho.
A saudade é um suspiro, um prodígio da memória.
Existe até a saudade doce, como aquelas que não asseveram noites frias
E são tão necessárias quanto a lã nas tardes cinza de inverno.
Mas existe ainda a saudade do que ficou sem resposta.
De perdas que não se resgataram
Do que dimensiona o adeus e o nunca mais.
Saudades que se transformam em lápides, e sepultam pedacinhos de nós.
E quando teimamos em ressuscitar esses pedacinhos, evocamos a dor.
Aí entra a memória
O pensamento é o único mecanismo que nos faz voltar no tempo
Mas nunca às mesmas horas, aos mesmos dias, aos mesmos anos,
porque a sucessão das coisas é a inexorável passagem que nos leva adiante,
deixando para trás aquilo que foi perdido para sempre.
Reviver esse passado pode ser alimentar a dor da saudade.
Talvez o único caminho seja vivermos exilados de nós mesmos
Como meros passageiros, apenas.
Prodígios da poesia - II
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
sábado, 16 de agosto de 2008
Um alumbramento: Chico Buarque
Hora de falar em Chico Buarque...Chico Buarque (nas palavras de Yara Cascales)
"Jogada no quintal, enxuta, a concha guarda o mar no seu estojo.”
Para mim, essa frase retrata a obra do Chico. (Perdoe-me a intimidade, mas convivemos tanto, diariamente, que me permito isso.) Existe simplicidade maior que uma concha abandonada em um quintal? No entanto, mesmo jogada, ela guarda em si todo o mar. Será de riquezas, de possibilidades, de mistérios, de promessas?
O mar é uma ótima analogia para a sua obra – profunda, intensa, com tanto a revelar, tantos recônditos, tanta beleza. É sempre uma descoberta ouvi-lo, a cada encontro ele revela um segredo, uma faceta sua até então desconhecida. Conhecer sua obra é como mergulhar: você nunca mais será a mesma. Em suas profundezas alterações acontecem, alterações inexplicáveis, que operam milagres em ouvidos sofridos com os barulhos de hoje.
A simplicidade com que ele escreve me lembra Quintana (sou íntima dos famosos!), o bom gaúcho retrata com tanta beleza a vida cotidiana! Duvida? Leia Pequena Crônica Policial. Esse poema revela um traço marcante nos seus quintanares: a morte. Eis aí a única diferença que vejo entre eles. Chico celebra a vida: nos amores, nas sátiras, nos deboches, nos protestos. Insiste em ser feliz “apesar de você”. Difícil falar dele sem parafraseá-lo, ele já disse tudo de interessante que havia para ser dito!
Chico me acompanha desde meus tempos de menina. Como era bom sonhar quando ele “era o herói”, com um cavalo poliglota e um reino que lhe pertencia, em que imperava a obrigação de ser feliz. Fez parte de minha adolescência, nos momentos em que questionamos o que não nos serve, em que tentamos marcar nossa presença no mundo e traçar nosso caminho, seu “Cálice” serviu para muitos de meus protestos, quando eu não tinha nada interessante para falar.
Quando adulta, veja a ironia, ele retratou muitos dos meus sentimentos. Vestiu a minha e a pele de muitas outras mulheres para falar da “dor e a delícia de ser o que é”.
Espero envelhecer tendo sua música a embalar minha vida e também a resgatar a beleza e a poesia que se perderam pelos descaminhos que a música está passando.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Notícias do reino
Será que ainda chove no mundo do reizinho insone?Ou a chuva está nos seus olhos...
Não há como saber o estado do seu céu
Porque está no alto da montanha, e as paredes de pedra do seu reino nos impedem de ver,
Talvez essas paredes forjem a sombra e as nuvens e as precipitações
Para um coração dorido não existe sol, ou azul, ou palavras.
Para os outros corações existe saudade
E o cheiro do pó da montanha.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Como voar através da música
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
O encanto e a magia de Mario Quintana

Mario Quintana, nasceu em Alegrete, em julho de 1906, e disse nunca ter escrito uma única vírgula que não fosse uma confissão, e me encanta saber que toda sua vida está nos seus poemas, de palavras simples e autênticas.
A limpidez da sua poesia chega a ser cristalina, tem pureza de expressão e foge das rimas banais, o que ele chamava de "busca da forma, e não da fôrma".
Nas suas palavras, as pequenas coisas ganham uma dimensão diferente, lúdica, aumentada, e a gente viaja nas asas da imaginação e no clima lírico do poeta, capaz de nos oferecer um manual risonho da desilusão.
Mario Quintana é pura ternura e encanto, e é mágico.
Da sua feitiçaria com as letras, escolhi três poemas, especiais e importantes nos meus caminhos.
Operação Alma e Presença: que os meus amigos conhecem, porque eu escrevi muitas vezes nas madrugadas dos bares, em guardanapos, folhas de caderno, caixinhas de cigarro e qualquer outro pedaço de papel. O primeiro me ensinou a fazer subjetivação de objetos e sorrisos, e no segundo a gente percebe que ninguém nunca falou tão lindamente sobre saudade.
E por fim, a Canção da Aia para o Filho do Rei, poema doce, que ouvi na voz do próprio reizinho insone, numa certa madrugada de abril.
Presença
Canção da Aia para o Filho do Rei
Mandei pegar as estrelas
Para velarem teu sono
Teus suspiros são barquinhos
Que me levam para longe...
Me perdi no céu azul
Minhas mãos dormem na sombra.
A quem será que sorris?
Quase me tocas... A medo




