sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Prodígios da poesia - III

Palavras
Gosto de brincar com elas.
Tenho preguiça de ser sério.
Tenho candor por bobagens.
Quando eu crescer eu vou ficar criança.
Manoel de Barros
(Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo)

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Pequeno ensaio sobre a saudade

A saudade é filha do tempo.
E nos seus braços o tempo tem outras horas
Outros compassos.
A saudade reina num tempo onde as datas não datam.
Ela pode chegar assim que uma porta se fecha.
Ou depois de muitos anos.
Pode chegar quando velhos retratos escapam das gavetas
Ou chegar de forma fortuita
Trazida por uma lembrança, um som, um cheiro, um sonho.
A saudade é um suspiro, um prodígio da memória.
Existe até a saudade doce, como aquelas que não asseveram noites frias
E são tão necessárias quanto a lã nas tardes cinza de inverno.
Mas existe ainda a saudade do que ficou sem resposta.
De perdas que não se resgataram
Do que dimensiona o adeus e o nunca mais.
Saudades que se transformam em lápides, e sepultam pedacinhos de nós.
E quando teimamos em ressuscitar esses pedacinhos, evocamos a dor.
Aí entra a memória
O pensamento é o único mecanismo que nos faz voltar no tempo
Mas nunca às mesmas horas, aos mesmos dias, aos mesmos anos,
porque a sucessão das coisas é a inexorável passagem que nos leva adiante,
deixando para trás aquilo que foi perdido para sempre.
Reviver esse passado pode ser alimentar a dor da saudade.
Talvez o único caminho seja vivermos exilados de nós mesmos
Como meros passageiros, apenas.

Prodígios da poesia - II

... Pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Fernando Pessoa (O guardador de rebanhos)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Prodígios da poesia


"Desaprender oito horas por dia ensina os princípios."
Manoel de Barros

sábado, 16 de agosto de 2008

Um alumbramento: Chico Buarque

Hora de falar em Chico Buarque...
O que dizer, e como dizer sem ser redundante?
Chico Buarque é um talento único, singular...
Um combinado de inteligência, sensibilidade, cultura e olhos verdes.
Dono de silêncios eloqüentes, palavras de encanto, docilidade valente, humor refinado e serenas firmezas.
Apenas a obra de Chico Buarque é capaz de traduzir Chico Buarque.
Mergulhar nessa obra é adentrar um mundo mágico, percorrer idílios, se emocionar, despertar num suspiro e com a alma à deriva.
Quem já fez essa viagem traz as marcas no coração, indeléveis, e entende quando dizemos que para falar sobre Chico é preciso inspiração divina, e que mesmo com o aval de Deus, as palavras jamais serão suficientes.
Eu tentei.

****
Outra tentativa:

Chico Buarque (nas palavras de Yara Cascales)

"Jogada no quintal, enxuta, a concha guarda o mar no seu estojo.”
Para mim, essa frase retrata a obra do Chico. (Perdoe-me a intimidade, mas convivemos tanto, diariamente, que me permito isso.) Existe simplicidade maior que uma concha abandonada em um quintal? No entanto, mesmo jogada, ela guarda em si todo o mar. Será de riquezas, de possibilidades, de mistérios, de promessas?
O mar é uma ótima analogia para a sua obra – profunda, intensa, com tanto a revelar, tantos recônditos, tanta beleza. É sempre uma descoberta ouvi-lo, a cada encontro ele revela um segredo, uma faceta sua até então desconhecida. Conhecer sua obra é como mergulhar: você nunca mais será a mesma. Em suas profundezas alterações acontecem, alterações inexplicáveis, que operam milagres em ouvidos sofridos com os barulhos de hoje.
A simplicidade com que ele escreve me lembra Quintana (sou íntima dos famosos!), o bom gaúcho retrata com tanta beleza a vida cotidiana! Duvida? Leia Pequena Crônica Policial. Esse poema revela um traço marcante nos seus quintanares: a morte. Eis aí a única diferença que vejo entre eles. Chico celebra a vida: nos amores, nas sátiras, nos deboches, nos protestos. Insiste em ser feliz “apesar de você”. Difícil falar dele sem parafraseá-lo, ele já disse tudo de interessante que havia para ser dito!
Chico me acompanha desde meus tempos de menina. Como era bom sonhar quando ele “era o herói”, com um cavalo poliglota e um reino que lhe pertencia, em que imperava a obrigação de ser feliz. Fez parte de minha adolescência, nos momentos em que questionamos o que não nos serve, em que tentamos marcar nossa presença no mundo e traçar nosso caminho, seu “Cálice” serviu para muitos de meus protestos, quando eu não tinha nada interessante para falar.
Quando adulta, veja a ironia, ele retratou muitos dos meus sentimentos. Vestiu a minha e a pele de muitas outras mulheres para falar da “dor e a delícia de ser o que é”.
Espero envelhecer tendo sua música a embalar minha vida e também a resgatar a beleza e a poesia que se perderam pelos descaminhos que a música está passando.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Notícias do reino

Será que ainda chove no mundo do reizinho insone?
Ou a chuva está nos seus olhos...
Não há como saber o estado do seu céu
Porque está no alto da montanha, e as paredes de pedra do seu reino nos impedem de ver,
Talvez essas paredes forjem a sombra e as nuvens e as precipitações
Para um coração dorido não existe sol, ou azul, ou palavras.
Para os outros corações existe saudade
E o cheiro do pó da montanha.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Como voar através da música


A história mitológica da música, no mundo ocidental, começou depois da morte dos Titãs, quando Zeus criou divindades capazes de cantar as vitórias do Olimpo.
Já para os egípcios, a música teria sido inventada por Tot ou por Osíris; para os hindus, por Brama; para os judeus, por Jubal e assim por diante... ou seja , a música é algo intrínseco a historia do ser humano sobre a Terra e uma de suas manifestações mais antigas e importantes.
Existem outras teorias sobre a história da música, e as formas de ritmo, melodia e harmonia, mas são todas menos poéticas.
Existem também conceitos lógicos e mecânicos, mas nenhum deles explica o poder de encantamento e de expressão das nossas subjetividades através dos sons. Ou o poder de analgia da música.
Para uma alma, o poder da música pode estimular e despertar emoções, reações, sensações e sentimentos. E esse poder nenhum comprimido de paracetamol tem.
A analgia através música foi percebida há milhares de anos, e se tornando forte depois das guerras mundiais, quando músicos passaram a tocar nos hospitais para os soldados feridos, que tiveram melhora significativa.
Mas não precisamos de comprovação científica para perceber o poder inebriante da música. Ouvir uma boa música é mergulhar num universo mágico, viajar nas notas, no lirismo dos sons, escorregar num derramamento de feitiçaria, compactuar com o insondável, sonhar e sublimar o pecado de se estar vivo.
Cabe a cada um escolher as asas que o levará para esse vôo rumo a um céu de sonhos.
Não entendo como alguns sons podem elevar um espírito, porque o meu desce degraus aos pulos quando os ouço...
Não vou discutir qualidade, mas para quem ainda não conseguiu alçar vôo, talvez seja o problema de asas erradas.
O meu vôo nessa tarde foi impulsionado pela voz doce de Edith Piaf, em Plus Bleu Que Tes Yeux. E o seu?

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O encanto e a magia de Mario Quintana


Hoje resolvi falar do poeta gaúcho que me fez abrir os olhos ao mundo da poesia.
Mario Quintana, nasceu em Alegrete, em julho de 1906, e disse nunca ter escrito uma única vírgula que não fosse uma confissão, e me encanta saber que toda sua vida está nos seus poemas, de palavras simples e autênticas.
A limpidez da sua poesia chega a ser cristalina, tem pureza de expressão e foge das rimas banais, o que ele chamava de "busca da forma, e não da fôrma".
Nas suas palavras, as pequenas coisas ganham uma dimensão diferente, lúdica, aumentada, e a gente viaja nas asas da imaginação e no clima lírico do poeta, capaz de nos oferecer um manual risonho da desilusão.
Mario Quintana é pura ternura e encanto, e é mágico.
Da sua feitiçaria com as letras, escolhi três poemas, especiais e importantes nos meus caminhos.
Operação Alma e Presença: que os meus amigos conhecem, porque eu escrevi muitas vezes nas madrugadas dos bares, em guardanapos, folhas de caderno, caixinhas de cigarro e qualquer outro pedaço de papel. O primeiro me ensinou a fazer subjetivação de objetos e sorrisos, e no segundo a gente percebe que ninguém nunca falou tão lindamente sobre saudade.
E por fim, a Canção da Aia para o Filho do Rei, poema doce, que ouvi na voz do próprio reizinho insone, numa certa madrugada de abril.


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Operação alma

Há os que fazem materializações..
Grande coisa! Eu faço desmaterializações. Subjetivações de objetos.
Inclusive sorrisos,
Como aquele que tu me deste um dia com o mais puro azul de teus olhos
E nunca mais nos vimos ( na verdade, a gente nunca mais se vê)...
No entanto, há muito que ele faz parte de certos estados do céu.
De certos instantes de serena, inexplicável alegria.
Assim como um vôo sozinho põe um gesto de adeus na paisagem
Como uma curva de caminho, anônima, torna-se às vezes a maior recordação de toda uma volta ao mundo!


Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem n'algum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!


Canção da Aia para o Filho do Rei

Mandei pegar as estrelas
Para velarem teu sono
Teus suspiros são barquinhos
Que me levam para longe...
Me perdi no céu azul
E tu, dormindo, sorrias.
Despetalei uma estrela
Para ver se me querias...
Aonde irão os barquinhos?
Com que será que tu sonhas!
Os remos mal batem n’água...
Minhas mãos dormem na sombra.
A quem será que sorris?
Dorme quieto, meu reizinho.
Há dragões na noite imensa,
Há emboscadas nos caminhos...
Despetalei as estrelas,
Apaguei as luzes todas.
Só o luar te banha o rosto
E tu sorris no teu sonho.
Ergues o braço nuzinho,
Quase me tocas... A medo
Eu começo a acariciar-te
com a sombra dos meus dedos...
Dorme quieto, meu reizinho.
Os dragões, com a boca enorme,
Estão comendo os sapatos
Dos meninos que não dormem...