terça-feira, 30 de setembro de 2008

Um revôo sobre as ruínas dos sonhos


Quem ama inventa

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar dos nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!
Mario Quintana

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

A importância das coisas


Sobre importâncias

Uma rã se achava importante
Porque o rio passava nas suas margens.
O rio não teria grande importância para a rã
Porque era o rio que estava ao pé dela.
Pois Pois.
Para um artista aquele ramo de luz sobre uma lata
desterrada no canto de uma rua, talvez para um
fotógrafo, aquele pingo de sol na lata seja mais importante
do que o esplendor do sol nos oceanos.
Pois Pois.
Em Roma, o que mais me chamou a atençào foi um prédio
que ficava em frente das pombas.
O prédio era de estilo bizantino do século IX.
Colosso!
Mas eu achei as pombas mais importantes do que o prédio.
Agora, hoje, eu vi um sabiá pousado nas Cordilheiras dos Andes
Achei o sabiá mais importante do que a Cordilheira dos Andes.
O pessoal falou: seu olhar é distorcido.
Eu, por certo, não saberei medir a importância das coisas: alguém sabe?


***************
Assim como o Manoel de Barros, eu também não sei.
Quem dimensiona o tamanho e a importância de todas as coisas é o meu coração, e estamos (quase) sempre de pleno acordo.
Mas é bem provável que alguém considere o meu olhar distorcido.
Eu vejo nas banalidades do cotidiano encanto e importância maior do que nos grandes destaques do Jornal Nacional.
Reconhecer essas pequenas importâncias, não perder o encanto dos olhos e sustentar esse olhar enviesado é uma benção...

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Sentimentos que nascem com a primavera


Para esquecer os descaminhos e os desalentos dos tempos cinza surge a primavera, trazendo novos sentimentos, sonhos, intenções e um mundo de cores...

Para comemorar a nova estação: Fernando Pessoa, e a expressão de um sentimento que tem tudo a ver com os anseios dos corações primaveris:

"Tenho pensamentos que, pudesse eu trazê-los à luz e dar-lhes vida, emprestariam nova leveza às estrelas, nova beleza ao mundo, e maior amor ao coração dos homens".

domingo, 21 de setembro de 2008

Prodígios da poesia - V


O inalcançável é sempre azul.
Clarice Lispector

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Desejo de constante amanhecer


Para quem se encontra anoitecido a poesia é um alento...

O casaco

Um homem estava anoitecido.
Se sentia por dentro um trapo social.
Igual se, por fora, usasse um casaco rasgado e sujo.
Tentou sair da angústia
Isto ser: Ele queria jogar o casaco rasgado e sujo no lixo.
Ele queria amanhecer.
(Manoel de Barros)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Dos defeitos que a gente tem...

Da música Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque e Edu Lobo, de 1982.
No fundo no fundo, todos nós gostaríamos de ser perfeitos como a bailarina, mas não tem jeito...

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Outro pequeno ensaio sobre a saudade

O silêncio das casas vazias

Às vezes eu acho triste o silêncio.
Mas só às vezes, porque também existem silêncios que são luz e imagem.
O que eu acho mesmo triste são aqueles silêncios que ampliam a solidão do abandono.
Como o silêncio das casas vazias, onde antes havia vida, mas que agora a gente pode até chamar: “Bernardo, Bernardo” (nome hipotético), e só nos responde o eco: “Bernardo”, mas o dono não aparece. Mudou-se ninguém sabe pra onde.
Nessas casas, que não sei se são desertas, ou um algum deserto em nós, vivem muitas das nossas memórias, algumas etéreas e perenes, outras lembranças esmaecidas, minúcias do que já foi vida e sonho, mas que se transformaram em ninhos de melancolia.
Essas casas vazias me lembram também as pessoas esvaziadas, aquelas que desamparam as palavras e perpetuam o silêncio, embora seus nomes ainda ecoem nas nossas varandas, nos nossos corredores e outros lugares inimagináveis.
Aproveito o silêncio azul marinho das noites para tentar entender porque há pessoas que não se despedem. Pessoas que nunca respondem os chamados.
E se esse silêncio disser mais que as respostas vãs aos nossos apelos nos portões, e se puder mais que a saudade que o alimenta, talvez eu entenda porque essas pessoas se transformam em ecos intermitentes nos lugares mais íntimos, nos nossos desertos, nossos quintais ou nas montanhas.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Alusão ao tempo

(por Manoel de Barros)

A tartaruga

Desde a tartaruga nada não era veloz.
Depois é que veio o forde 22
E o asa-dura (máquina avoadora que imita os pássaros,
e tem por alcunha avião).
Não atinei até agora por que é preciso andar tão depressa.
Até há quem tenha cisma com a lesma porque ela anda muito depressa.
Eu tenho.
A gente só chega ao fim quando o fim chega!
Então pra que atropelar?

domingo, 7 de setembro de 2008

Prodígios da poesia - IV

Da Inquieta Esperança

Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu... quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.
(Mario Quintana)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Cortinas de algodão azul


Talvez fossem necessárias muitas cortinas de algodão, milhares delas, e todas azuis, para nunca mais ter uma janela aberta para realidades sofridas. Nunca mais ver a estampa dos retratos crus.
Mundo mapeado e corações mapeados, com indicações claras dos perigos e desvios.
Sentimentos suspensos.
Sentidos suspensos.
Tudo isso para passarmos sem marcas e para conservar a alma indene.
Não teríamos mistérios para decifrar, nem a solidão do universo, nem alusão ao silêncio ou palavras desamparadas.
As existências seriam translúcidas e os enredos, monocromáticos.
Um mundo sem arestas...
Mas nessa porosidade das perspectivas e circunstâncias, argumentos fugidios e incertezas pulverizadas...
Enfim, no meio desse alheamento todo azul, desconfio que teríamos um mundo sem suspiros.
Valeria a pena?