domingo, 28 de dezembro de 2008

Os caminhos incertos do calendário


É mesmo preciso dizer alguma coisa porque um ano termina e outro ano começa?
Quase sempre me pareceu preciso. Mas desta vez não vou dizer muito, prefiro me entregar aos acontecimentos. Não reafirmarei promessas que sucumbem antes mesmo do carnaval.
Não é tarefa fácil, já me peguei várias vezes afagando expectativas para as novas datas, ainda tão incertas.
Tenho sonhos e desejos, mas dessa vez quero o destino manifesto. Por isso ficarei quietinha enquanto o ano termina. Quero a sinfonia do acaso, não sei bem se por cansaço ou preguiça, não projeto palavra alguma, porque no meu íntimo as ressonâncias se encontram sem que se diga um "a".
Não preciso de muitas palavras só porque o ano termina. Nem promessas, nem acerto com o passado, nem reproduzir automaticamente as frases dos cartões pré-fabricados, todas tão prontas e tão automáticas.
No fundo no fundo, a única coisa que importa, mesmo, em qualquer altura da folhinha, ano termine ou comece, é que eu tenho um amor sem destino.
E por essa falta de norte, nessa porosidade de perspectivas, solto as amarras do passado e nem vislumbro futuro, aguardo apenas, eu e meu coração, encostados no lado azul do silêncio, enquanto os calendários se fecham.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Receitinha de Drummond

Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.
(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Outra vez Manoel


Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.
E...
Uso as palavras para entender meus silêncios.
(Manoel de Barros)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Esquinas


Foi numa esquina, numa noite de inverno, que ficou a imagem dos meus sonhos.
"E nunca mais nos vimos", como no poema do Quintana, "na verdade a gente nunca mais se vê, no entanto há muito ele ainda faz parte de certos estados do céu, certos intantes de serena e inexplicável alegria. Como um vôo sozinho põe um gesto de adeus na paisagem. Como uma curva de caminho, anônima, torna-se às vezes a maior recordação de toda uma volta ao mundo".
E foi realmente assim.
Hoje, duas estações depois, ainda é a minha maior e mais doce recordação, a razão de toda saudade.