quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A arte da comunicação



A namorada


Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa porum cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.
(Manoel de Barros)



Os tempos mudaram, mas ainda hoje existem galhos de goiabeira e muros altos que impedem nossos bilhetes de chegar ao destino.
E quase nunca a resposta vem na mesma pedra.
A comunicação ainda é tão difícil....

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Depois da chuva

A saudade que tinha dela era tanta que ele decidiu ir atrás da chuva.

Como aqueles homens de antigamente, que iam para o oeste atrás de tesouros, lá foi ele, para o oeste, atrás daquilo que valia mais a ele que todo ouro do mundo: as ternas gotas da chuva que caía quando pensava nela.

Foi montado no vento, até os jardins com a terra cor-de-figo. Jardim como esse só poderia ter um nome doce de mulher.

E é nesse jardim que vive o mundo depois da chuva. Ele jamais conhecera esse mundo. Como poderia imaginar que depois da chuva nem a saudade caberia mais nas palavras. Saudade, depois da chuva, vira ternura.

E ele também descobriu que a ternura mora na eternidade.

Será que ela percebeu que deixou de caber nas palavras dele e passou a habitar toda sua eternidade?


Texto de Bernardo Guerra, o meu poeta.
Publicado em 09 de janeiro de 2009, no blog http://www.sobrenuvensefronhas.blogspot.com/